Como juízes fundamentam a aplicação de uma medida de internação para adolescentes

discursos em sentenças judiciais

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.15367744

Palavras-chave:

Tomada de decisão judicial, Medidas socioeducativas, Critérios para aplicação, Discricionariedade dos juízes, Internação

Resumo

A tomada de decisão referente à medida ideal a cada adolescente é um fator fundamental ao processo que visa à interrupção da trajetória infracional e à promoção de sua inserção social. A medida socioeducativa da internação, a mais severa delas, é excepcional e deve ser aplicada somente quando presentes diversos requisitos legais. O objetivo do presente estudo é conhecer e compreender o conteúdo das sentenças proferidas em processos relativos a uma amostra de adolescentes internados provisoriamente, considerando os fundamentos utilizados pelo Poder Judiciário para aplicação da medida socioeducativa de internação. Os resultados apontam para um processo de tomada de decisão judicial centrado em uma fundamentação baseada na gravidade em abstrato do ato infracional e a trajetória infracional oficial do adolescente. Elementos ligados às necessidades dos adolescentes são deixados de lado pelos magistrados e, quando utilizados, compõem discursos que revelam concepções estereotipadas sobre a adolescência e a conduta infracional, as famílias em vulnerabilidade social e o papel do Poder Judiciário na suposta “proteção” do adolescente e no “combate” à criminalidade. As sentenças analisadas estão estruturadas em modelos prontos, sem qualquer individualização e repetem para todos os adolescentes a mesma fundamentação para justificar que medida deve ser aplicada.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Bruno César da Silva, Universidade de São Paulo

Doutorando em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo/Ribeirão Preto. Mestre em sistema de garantias fundamentais pela Instituição Toledo de Ensino. Defensor Público do Estado de São Paulo. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/52124967004.

Profa. Dra. Marina Rezende Bazon, Universidade de São Paulo

Professora Titular do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo. Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Desenvolvimento e Intervenção Psicossocial (GEPDIP).

Profa. Dra. Esther Fernández Molina, Universidad de Castilla-La Mancha

Professora Titular e Diretora do Centro de Investigação em Criminologia e Delinquência Juvenil – Universidad de Castilla-La Mancha.

Referências

ÁGUIDO, C. M. S.; CHACHAM, A. S.; FAZZI, R. C. REPRESENTAÇÕES sociais dos juízes na aplicação da privação de liberdade a adolescentes autores de ato infracional. Dilemas: Revista de Estudo de Conflito e Controle Social, v. 6, n. 2, p. 295-330, 2013.

AZEVEDO, R. G. Ministério Público Gaúcho: Quem são e o que pensam os Promotores e Procuradores de Justiça sobre os desafios da Política Criminal. Porto Alegre: Ministério Público do Rio Grande do Sul, 2005.

BARDIN, L. Análise de Conteúdo. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

BAUM, L. Judges and their audiences. Princeton: Princeton University Press, 2006.

BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Código Penal.

BRASIL. Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Lei nº 8.069, 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União, ano 1990. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 30 mai. 2024.

BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Levantamento Anual Sinase Ano 2023. Brasília: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, 2023.

BRAUN, V.; CLARK, V. Thematic analysis. In: COOPER, H. et al. (Eds.). APA handbook of research methods in psychology, Vol. 2: Research designs: Quantitative, qualitative, neuropsychological, and biological. American Psychological Association. p. 57-71.

ENGLICH, B.; MUSSWEILER, T.; STRACK, F. Playing Dice with Criminal Sentences: The Influence of Irrelevant Anchors on Experts’ Judicial Decision Making. Personality and Social Psychology Bulletin, v. 32, n. 2, p. 188-200, 2006. https://doi.org/10.1177/0146167205282152

FERRAJOLI, L. Derecho y Razón: Teoria del Garantismo Penal. 4. ed. Madrid: Editorial Trotta, 2000.

GALINARI, L. S. Prática de atos infracionais na adolescência: Identificação de perfis comportamentais e psicossociais. 2019. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, Departamento de Psicologia, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2019.

GEBO, E.; STRACUZZI, N. F.; HURST, V. Juvenile justice reform and the courtroom workgroup: Issues of perception and workload. Journal of Criminal Justice, v. 34, n. 4, p. 425-433, 2006. https://doi.org/10.1016/j.jcrimjus.2006.05.008

GLASER, D. Classification for risk. In: GOTTFREDSON, D. M.; TONRY, M. (Eds.). Prediction and classification: Criminal justice decision making. Chicago, IL: University of Chicago Press, 1987. p. 249-292.

GORDILHO, H. J. S. Por uma dogmática Pós-Moderna. Revista do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal da Bahia, n. 16, 2008.

HAGAN, J.; HEWITT, J.; ALWIN, D. Crime and punishment in a loosely coupled system. Social Forces, v. 58, n. 2, p. 506-527, 1979

HARTLEY, R. D.; MADDAN, S.; SPOHN, C. Concerning conceptualization and operationalization: Sentencing data and the focal concerns perspective – A research note. The Southwest Journal of Criminal Justice, v. 4, p. 58-78, 2007.

HORTA, R. L.; COSTA, A. A. Das teorias da interpretação à teoria da decisão: Por uma perspectiva realista sobre as influências e constrangimentos sobre a atividade judicial. Revista Opinião Jurídica, Fortaleza, v. 15, n. 20, p. 271-297, 2017. https://doi.org/10.12662/2447-6641oj.v15i20.p271-297.2017

JAYME, F. G.; TAMANTINI, E. B. F. O discurso moralizante nas sentenças que restringem ou privam de liberdade adolescentes em Belo Horizonte. Revista Brasileira de Ciências Criminais, v. 28, n. 166, p. 377-409, 2020.

LERNER, J. S.; TETLOCK, P. E. (2003). Bridging individual, interpersonal, and institutional approaches to judgment and decision making: The impact of accountability on cognitive bias. In: SCHNEIDER, S. L.; SHANTEAU, J. (Eds.). Emerging perspectives on judgment and decision research. Cambridge University Press, 2003. p. 431–457. https://doi.org/10.1017/CBO9780511609978.015

MACHADO, E. B. L. A.; SOBRAL NETO, M. M.; DINU, V. C. D. Normalização e sujeição: Finalidades da medida socioeducativa de internação para adolescentes em conflito com a lei: um estudo com sentenças em Pernambuco. Revista Brasileira de Ciências Criminais, v. 24, n. 126, p. 37-66, 2016.

MALONEY, C.; MILLER, J. The Impact of a Risk Assessment Instrument on Juvenile Detention Decision-making: A Check on “Perceptual Shorthand” and “Going Rates”? Justice Quarterly, v. 32, n. 5, p. 900-927, 2015. https://doi.org/10.1037/lhb0000344

MARINHO, F. C. Mudanças, resistências e composições na justiça juvenil: abordagem comparativa entre Brasil e França. 2012. Tese (doutorado em sociologia) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de Minas Gerais, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/BUBD-9ZGGCU. Acesso em: 30 mai. 2024.

MENDEZ, E. G. Adolescentes e responsabilidade penal: um debate latino americano. Buenos Aires, 2000.

MINAHIM, M. A.; SPOSATO, K. B. A internação de adolescentes pela lente dos tribunais. Revista Direito GV, v. 7, n. 1, p. 277-298, 2011. https://doi.org/10.1590/S1808-24322011000100014

MIRAGLIA, P. “Aprendendo a lição: uma etnografia das Varas Especiais da Infância e da Juventude”. Novos Estudos – CEBRAP, n. 72, p. 79-98, 2005.

MISSE, M. Malandros, marginais e vagabundos: a acumulação social da violência no Rio de Janeiro. 1999. Tese (doutorado em Sociologia) - Instituto Universitario de Pesquisas do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1999.

OLIVEIRA, T. R. Mecanismos sociais de decisões judiciais: Um desenho misto explicativo sobre a aplicação da medida socioeducativa de internação. 2016. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras, e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: https://nev.prp.usp.br/publicacao/mecanismos-sociais-de-decisoes-judiciais-um-desenho-misto-explicativo-sobre-a-aplicacao-da-medida-socioeducativa-de-internacao/. Acesso em: 30 mai. 2024.

SAPORI, L. E. A administração da justiça criminal numa Área metropolitana. Revista Brasileira de Ciências Soctis, v. 10, p. 1-20, 1995.

STEFFENSMEIER, D.; ULMER, J. T.; KRAMER, J. H. The interaction of race, gender and age in criminal sentencing: The punishment cost of being young, black, and male. Criminology, v. 36, n. 4, p. 763-798, 1998. https://doi.org/10.1111/j.1745-9125.1998.tb01265.x

ULMER, J. T. (1995). The organization and consequences of social pasts in criminal courts. The Sociological Quarterly, v. 36, n. 3, p. 587-605, 1995. https://doi.org/10.1111/j.1533-8525.1995.tb00455.x

Downloads

Publicado

2025-09-11

Como Citar

SILVA, Bruno César da; BAZON, Marina Rezende; FERNÁNDEZ MOLINA, Esther. Como juízes fundamentam a aplicação de uma medida de internação para adolescentes: discursos em sentenças judiciais. Revista Brasileira de Ciências Criminais , São Paulo, v. 209, n. 209, p. 17–47, 2025. DOI: 10.5281/zenodo.15367744. Disponível em: https://publicacoes.ibccrim.org.br/index.php/RBCCRIM/article/view/1212. Acesso em: 10 fev. 2026.

Edição

Seção

Processo penal

Artigos Semelhantes

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 > >> 

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.